terça-feira, setembro 05, 2006

Ossos do ofício

Tenho dois avôs, um é médico.

Estava esta semana conversando em seu apartamento lendo um dos seus muitos textos, quando vi algo interessante. Claro que todos sempre vão puxar sardinha para o seu lado, e com ele não poderia ser diferente. Falava em determinado trecho do texto que a sua profissão – médico – era a mais sublime, dramática e excelsa dentre todas. Pensei a respeito e concordo com o romantismo e a poesia da coisa: Cuidar de vidas humanas!

Por mais que o tempo tenha passado, direito, medicina e engenharia ainda têm seu lugar de destaque na cadeia social – a disciplina de saúde é o prêmio máximo! Tenho minhas dúvidas se todos os estudantes de tal curso realmente o fizeram pelo altruísmo da salvação e manutenção deste bem maior. Até então, creio que o mesmo pode acontecer em todos os cursos de uma faculdade, e poucos são os que se mantêm nas suas devidas profissões por verdadeiramente acreditarem nela.

Minha profissão é antiga. Sim senhor, muito mais antiga do que se imagina.

Nos distantes dias da era paleolítica, surge o primeiro artesão. Sim, o artista! Dentre os caçadores do bando, os mais dotados são escolhidos para exercer este novo ofício. Nesta nova ordem social onde o antes caçador, agora artista, deixa de tirar da terra e dos animais o seu sustento, mostra seu destaque na tribo. Existe uma hierarquia na qual este artista é sustentado pelos demais por possuir este novo cargo. O dom da representação gráfica é interpretado como magia, e da magia vem a arte.

Antes caçador, agora artista, ganha uma nova face: sacerdote, xamã! O xamã surge como um ponto de equilíbrio para esta nova crença. Envocando espíritos, entoando ritos, age também como curandeiro, sem perder suas funções de artista. Segundo José Olympio: “Todo o processo de se tornar e agir como xamã é essencialmente um processo de criação artística”.

Nunca estudei a origem da prostituição, mas garanto que se o artista não for o profissional mais velho deste planeta, pelo menos muito próximo disso ele estará. Claro que não é a sua idade que torna a arte a mais bela dentre as belas, caso fosse, Dercy Gonçalves seria a mulher mais bonita deste país.

A diferença fundamental entre a arte e os outros ofícios é que por princípio, a arte procura à beleza. Esta idéia era muito bem trabalhada pelos gregos com o seu conceito de kalokagathia (ser belo e bom). A pintura e escultura, segundo Sócrates, ficava entre o plano real e o sensível, pois o artista, buscando o belo, impunha alma e vida à sua obra. Para Platão, a música, poesia, literatura e história eram algo que provinha da inspiração divina. Tudo que é belo provêm da arte para Luigi Pareyson; o belo é o equilíbrio.

Fizeram crer que a arte é algo supérfluo, e que o artista é apenas alguém estranho e aéreo no mundo. Ledo engano! A arte impulsionou o mundo. Foram os antigos xamãs, foi a razão do povo helênico, foi a expressão contra a guerra espanhola, foi a revolução de vinte e dois. Quando algo não agrada uma população, rapidamente surgem filmes, livros e músicas de protesto. Isto não é arte? Sim, a arte é funcional e é vital ao ser humano. Ela forma opiniões, forma identidade. Conhecemos a França por seus quadros e seus famosos museus, a Itália pelo seu Coliseu e o Brasil por sua música. Tudo é expressão e por conseguinte, arte. Até mesmo meu avô, para falar da sua profissão de médico utilizou-se dos recursos da prosa e da poesia para assim embelezar sua paixão.

Recorro a arte, sendo ela plástica ou não, para qualquer objetivo que queria. A arte sim é sublime, dramática e excelsa – segundo palavras do meu avô. Algo que objetiva o belo não poderia ser diferente. A arte objetiva o belo, o belo provém da arte. O artista é essa pequena peça que amalgama as emoções e as transmitem aos outros. Até hoje me emociono sentindo paixões que nunca tive nas músicas de Chico Buarque ou nas figuras oníricas de Dave McKean; ambos, artistas!

Um comentário:

Anônimo disse...

Showwwww!!!!!!