quarta-feira, agosto 20, 2008

sexta-feira, agosto 08, 2008

A dialética do Jeans

Recentemente estava em uma mesa de bar – em um período pré-lei seca – escutando como quem não quer nada, a conversa dos outros. Estava só e era uma noite de terça-feira. Havia em uma mesa próxima, dois jovens casais discutindo sobre um dos temas mais propícios para tal ambiente: relacionamentos e conselhos amorosos. A propriedade em falar sobre a vida alheia é um dom nato para os “botequeiros” de plantão. Só uma conversa rápida, sem compromisso e sem ferir ninguém...


Estiquei-me um pouco mais na cadeira procurando uma forma de ouvir mais atentamente os conselhos que estava sendo dados. Não eram exatamente conselhos, mas sim filosofias próprias sobre a vida a dois. Um dos rapazes começou sua sentença:


– Existe um exemplo que sempre costumo usar neste tipo de situação...


Imagine que você é uma mulher – caso você já não seja uma – e está procurando uma roupa para ir à festa do final de semana. De repente, passeando pelo Shopping, você se depara com a loja da (escolha o nome que mais lhe convir). Decide então comprar uma calça. Olha todas, passa um bom tempo entre o experimentar, pedir opiniões, perceber o corte, dar uma olhadela no preço... E por fim, com as parcelas devidamente calculadas, leva-a para casa. A calça está linda e o seu grande sonho de consumo foi enfim consumado. Acontece que a festa não é no mesmo dia da compra, lembre-se que ainda estamos na terça-feira.


A semana transcorre dentro da normalidade esperada. Chega o grande dia. Toda ansiosa, corre ao guarda-roupa e procura pela calça – aquela. Ao vesti-la novamente, algo de inédito acontece: a calça já não é mais a mesma de antes, ou seria você que já não é mais a mesma pessoa? Todas aquelas sensações de prazer propiciadas pela peça de roupa na terça-feira não estão mais presentes no sábado. Você veste de novo e de novo, mas a calça já não te agrada tanto quanto antes.


Neste momento, o rapaz interrompe sua narrativa para uma pausa dramática. Encara todos nos olhos antes de continuar, enquanto eu estou quase caindo da minha cadeira para melhor ouvir o final da explicação.


– Sabem o que é isso? Esse é o conflito de você com você mesma! – a grande revelação – Se para conseguir entender e lidar com você mesma já dá muito trabalho, imagine conviver com outra pessoa. Pois é, essa é a vida, sem tirar nem colocar.


Sento-me novamente em uma posição confortável para pensar melhor sobre a teoria. Faz todo o sentido do mundo: duas pessoas não cabem em uma mesma calça – não em uma calça de tamanho normal. Penso que realmente essa é a vida e volta e meia ela tenta me acordar com lições que mais parecem tapas na cara.


segunda-feira, agosto 04, 2008

quinta-feira, março 27, 2008

Agora e na hora

“Eu te amo” foi a primeira frase que Oswaldo proferiu após um minuto e meio de sexo. Afagou delicadamente os cabelos da puta que acabara de conhecer e sussurrou em seu ouvido. Gozou em pouco mais de dois minutos. Ela levantou-se procurando um cigarro em suas roupas no chão e foi até a janela sem olhar para trás.

Oswaldo foi deixado na cama, sentado na beira, com o corpo jogado para trás apoiado pelos cotovelos. Suas calças ainda estavam em seus tornozelos e a camisa amarrotada. Olhou para o seu pênis ainda embalado pelo preservativo. A sua frente, a silhueta esguia da prostituta.

Oswaldo vestiu-se e deixou o dinheiro no criado-mudo enquanto ela se preparava para receber mais outro cliente naquela noite de maio...

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Road Trip, Bad Trip

Em uma bela quarta-feira, sem o menor propósito do dia, Mateus acordou tarde. Rolou ainda alguns minutos na cama antes de se levantar. O chuveiro havia queimado e foi trazido do sono por um banho frio. Enxugou os cabelos curtos em sua toalha velha e saiu para a rua. Andou alguns quarteirões até parar em uma esquina e começar a pedir carona.

Depois de duas horas parado, passou por ele uma Kombi vinda de Porto Alegre. Toda decorada com motivos indianos e cores chamativas, saiu de dentro dela um exemplar vivo de que o tempo pode ser estático para algumas pessoas; algo como uma fotografia, onde o mundo continua a correr, enquanto naquela imagem... Mateus pensou que não seria uma boa metáfora e não continuou com o pensamento. Apenas entrou na Kombi.

Miguel viajava pela América do Sul com sua família. Sua esposa, Maria, trazia uma criança recém nascida em seus braços, e com o seio descoberto, amamentava. Mateus sorriu, e toda a sua gentileza foi resumida neste gesto. Miguel contou viagens por estradas Uruguaias e os sabores dos fumos distantes. Pregava a liberdade, recusava-se a se alimentar de outros animais...

Mateus apenas olhou o asfalto e ouviu. Lembrou das estórias que sua avó contava quando era mais moço e pensou como tudo que passou parece ser bem mais fácil e melhor do se achava na época. Pensou em como aquela conversa era chata e como tudo aquilo lhe parecia uma grande besteira.

Depois de uns trezentos metros pediu para parar. Ali já estava bom, ele disse. Já tivera aventuras demais por um dia. Tinha que voltar logo para casa, antes que perdesse o ponto do emprego.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

E foi-se o Reveillon

Estou cansado do respeito à terceira idade. Estou cansado do respeito aos mais velhos. Começo o ano dizendo que cansei logo nos primeiros dias. Cansei da opinião alheia e do respeito à mesma. Cansei do respeito às minorias menos favorecidas ou às maiorias lesadas por séculos de história. Cansei do discurso da reparação.

Não tenho pesar em minha escrita; tenho apatia. Sinto um tédio incomensurável ante tudo isto. Estou cansado das lições de moral da vida, do conhecimento defasado e hierárquico dos cabelos brancos. Ouvi calado, guardei todo o sentimento dentro de mim e retribui com um silêncio. Um silêncio que gritava e me fazia tremer o corpo.

Cansei de tentar enxergar pelo olhar do outro. Cansei de entender as besteiras do mundo adulto. Não tenho nenhum sentimento pelo finado cordeiro de deus. O pecado continua entranhado em cada fruto do planeta. Estou cansado do perdão, e não o quero.

Não sinto pena das crianças que morrem de fome em algum país da África. Não me solidarizo com as vítimas da guerra ou da Tsuname. Estou cansado de todo esse altruísmo que parece ser inerente à todas as pessoas. Não acredito nisso. Acho muito fácil e cômodo se sentir tocado pelos eventos que não nos tangem diretamente. No meu vocabulário, isso tem outro nome.

Cansei da piedade das pessoas. Cansei de gente bonita. Cansei dos meninos e meninas do roque. Cansei da família e dos bons costumes. Não acredito na anarquia ou em qualquer outro tipo de governo. Não acredito no niilismo. Não gosto dos estudantes universitários de esquerda com os seus discursos interrompendo aulas. Não gosto dos estudantes dedicados à vida política, com barba sempre por fazer, roupas de trinta anos atrás e desempregados. Eles estão inclusos no parágrafo anterior...

Cansei da solidariedade, cansei da piedade e da falta de amor próprio. Cansei da banalização dos sentimentos. Não consigo chorar – mesmo que eu tente – quando escuto “Pai” de Fábio Junior. Acho tão ridículo quanto Raul ou Renato.

Cansei do bom gosto, das críticas positivas, da sobriedade. Cansei de me sentir tão cansado. Não queria acordar achando nada diferente disso. Não quero ser uma pessoa do sim. Quero cheirar fumaça de óleo disel. Me embriagar até que alguém me esqueça.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Contos da crípta

A inclusão digital chegou ao reino do além. Fantasmas há muito tempo esquecidos podem se comunicar com os vivos. Graças à globalização, atingimos lugares antes nunca imaginados.

Fantasmas são os seres que ainda teriam uma missão a concluir deste lado de cá da existência; planos inacabados e todo o resto que nós já sabemos... Talvez por isso eles desejem tanto se comunicar conosco. Nada mais justo! Agora podemos receber e-mail’s dos falecidos e até ter uma conversa informal pelo msn com o nosso querido Allan Kardec. Ainda não achei nenhum espírito vagando pelo Orkut, mas com um pouco de fé e com a ajuda do e-mule, tudo torna-se possível nos dias de hoje.

Estava seguindo outro dia pela rua, quando ouvi um sussurro. Não soube dizer o que aconteceu exatamente. Talvez algum ruído branco no meu mp4... Esses fantasmas realmente nos pregam cada peça as vezes, sempre uns brincalhões...

quinta-feira, outubro 04, 2007

Crackolândia

Com apenas um empurrão, tudo acabou para sempre. Um sopro foi o suficiente para acabar com a eternidade dos dois. Todos os alicerces do castelo ruíram. Sentaram com os joelhos abraçados contra o peito e ficaram em silêncio vendo tudo ir embora com a tempestade. Ela levantou e saiu correndo atrás das suas loucuras que espalhavam-se pela cidade. Correu cada vez mais lento e sem direção até cair perto do Elevador Lacerda; rolou pela Cidade Baixa e morreu em frente à Conceição da Praia.

Ele tentou segui-la, mas não conseguiu. A cada queda dela, ele limpava as suas feridas e a confortava com palavras. A cada nova escoriação, ela retribuía com uma outra nele. Ao fim ele já estava machucado demais para continuar correndo. Caiu de joelhos e a viu cair no cartão postal. Não teve reação – estava cansado demais para sentir qualquer coisa –, apenas uma tristeza gigante que já era o seu estado natural.

Aos poucos, levantou e buscou achar outros. Procurou por ombros para amparar as suas lágrimas. Percebeu que todos tinham ficado no princípio da jornada. Tentou voltar lentamente ao ponto de partida, mas parecia que o regresso era bem mais penoso... Não encontrou mais seus parceiros, filhos, amigos... Percebeu que estava só.

Percebeu que a corrida tinha sido demais para ele e para todos os que o assistiram correr. Percebeu que as feridas tinham sido muito mais profundas do que ele mesmo esperava. Percebeu que já não era mais tão jovem quanto o que pensava que fosse. Percebeu que na queda dela, ele havia morrido também.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Português

Sentado em frente à sua velha máquina, repetia o mesmo ritual que se tornara costumeiro neste último ano. Procurava desesperadamente um meio de dar fim à sua história. Seus personagens estavam aprisionados nas suas palavras, vivendo na pilha de papel que se acumulava ao lado da cama. Quase podia ouvi-los gritar esperando o ponto final; este parecia lhe fugir...
Tirou os óculos e coçou a testa já enrugada. A visão já não era tão boa quanto antes e a luz do seu apartamento também não era tão boa assim. Recostou na cadeira e olhou para o teto como se lá pudesse encontrar alguma resposta para os conflitos existentes nas pontas dos seus dedos: apenas a tinta branca desbotada. Escutou o barulho da chuva castigando sua janela.
A um ano atrás, acordou com uma idéia fixa na cabeça. Passou o dia conversando com pessoas imaginárias. Ao longo do mesmo, sua mente tornou-se super povoada. Correu para o armário e achou a máquina de datilografar que pertencera ao seu finado avô. Sentou e desde então não conseguiu mais parar de escrever. Aos poucos foi perdendo os amigos, o trabalho, o interesse por tudo. Visava apenas saber como terminaria toda aquela confusão que se instaurou em sua mente.
Com o passar do tempo, viu-se escravo dos seus personagens. Já não tinha mais controle sobre o que saía no papel. Deixou que eles vivessem a sua própria vida. O telefone parou de tocar, as contas continuavam se acumulando sob a porta. Não tinha mais muito em casa para sobreviver. Só viveria quando terminasse com a vida das suas criaturas.
Passou de autor à personagem também.
Sentia o sarcasmo que os seres do papel usavam ao se referir a ele. Tentava fugir, mas estes o manipulavam. Sentia muito medo quando sentava na sua escrivaninha, pois não sabia o que poderia acontecer em mais uma noite de literatura. Era tudo tão real que se sentia perseguido. Quando não podia mais, começava a escrever nas paredes. A sua história estava espalhada por todos os lados.
Estava na cama com as mãos trêmulas segurando um copo de água. Abriu as janelas, e junto com o vento, a chuva entrou. Os papeis voaram pela casa. Um redemoinho de vidas alheias tomou conta de tudo. Ouvia seus personagens gritando por suas vidas.
Correu para a velha máquina e sentou para escrever pela última vez. Não houve nada de novo. Nenhuma reviravolta. Apenas terminou com três pontos, já que sabia que nada daquilo nunca terminaria.
Vestiu o paletó já empoeirado enquanto tudo voava pelos ares. As folhas já eram borrões de tudo que já havia acontecido. Os pontos eram a continuação para algo que ele sabia que não continuaria. Sabia que eles – seus personagens – tomariam o controle daquele momento em diante.
Trancou a porta atrás de si antes de voltar à sua vida, deixando o redemoinho terminar o seu serviço...

quarta-feira, julho 04, 2007

Caiporismo

As vezes é tão difícil, que nem saberia como (d)escrever...

quarta-feira, maio 30, 2007

Mamíferos

Sou mãe pela metade. Sim, tive meu filho e carreguei-o durante os longos nove meses que se seguiram. Amamentei-o com todo o meu leite. Ele morreu tem poucas horas. Estou sentada do lado de fora da sala do doutor. Procuro por um choro infantil mas não encontro nada além das lamentações adultas. Sinto o seu peso em meus braços e olho para os meus seios cheios de vida ainda, fartos... Não sei o que fazer com todo esse resto de corpo que virei.

Abraço meus joelhos com força e rezo baixinho para que ele acorde. Rezo para que tudo seja um sonho ruim. Alguém me oferece um calmante; não quero ficar calma. Meu filho morreu e não existe calma em nada disso. Apenas vazio. Um grande vazio. Penso com quem poderia compartilhar a minha dor, mas acho que seria dor demais para ser suportada por outra pessoa. Não tenho outra pessoa. Sou mulher, sou só.

De repente gostaria que toda a alegria do mundo acabasse para perceberem que meu filho morreu. As pessoas ainda andam na rua, sorriem. As folhas não caem, o dia continua bonito, a vida continua de uma certa maneira, mas o meu filho permanece morto.

Levanto para olhar o seu pobre corpo pelo vidro. Vejo tantos fios e aparelhos ao seu redor. Minha pequena criança parece tão sossegada alheia a tudo aquilo. Mordo a palma da mão enquanto as lágrimas não param de cair. Sinto o corpo todo tremer só em lembrar o seu cheiro.

Olho para os lados e não vejo ninguém. Empurro a porta que abre fácil para dentro. Vou ao seu encontro e pego-o nos braços. Está tão frio que o aperto cada vez mais contra meu peito. Meu menino deve estar com fome. Rapidamente levanto a blusa e tiro o meu seio para fora. Coloco em sua boca e aperto o leite para dentro da sua garganta. Sua boca enche e começa a escorrer pelos lados molhando todos os lençóis embaixo. Nada mais sinto quando percebo que toda aquela vida se esvai de mim.

quarta-feira, abril 18, 2007

Designação

Hoje eu acordei com uma saudade danada dentro do peito. Uma dor aguda e distante que foi batizada em outro continente por esse nome. Os sentimentos foram nomeados com uma função; as dores dos barcos que partem e dos acenos nas costas lusitanas. Algo tão antigo e tradicional que veio morrer aqui ao meu lado agora. Acordei com uma saudade que só existe em sambas-canções!

Acordei com uma dificuldade de organizar pensamentos. Toda a razão grega de Platão deu lugar ao sentimentalismo barroco e a dramaticidade latina. Minha dor foi sufocada pela fatalidade do todo. A saudade veio como fruto da solidão, e quando tudo apertou, abracei o travesseiro bem forte: só o meu cheiro estava lá. Lendo as minhas palavras, elas eram apenas minhas. Olhando as minhas fotos, só, eu estava lá. Pensei na árvore que cai na floresta e ninguém vê. Será que ela realmente caiu? Pensei se estava realmente triste se não tinha ninguém com quem compartilhar isso.

Em tempos modernos, as dores vêem dos ônibus e aviões; pois assim como os bares, os namoros chegam à falência.

Não há público para nada disto.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Segundos, minutos e terceiros

Depois de três dias não sentia mais seu cheiro.

Em uma semana não lembrava mais da sua voz.

Esqueci a cor dos seus olhos com o passar do tempo.

Não reconheci mais o seu rosto em uma foto do jornal de amanhã.

Seu corpo me pareceu estranho depois dos outros amores.

O toque era ríspido após um verão.

Não sabia de mais nada depois de uns anos.

Fiquei na janela, esperando o dia passar.

domingo, fevereiro 25, 2007

João e Maria

Madalena desceu a ladeira. Disse que para o meu barracão não queria mais voltar. Saiu com uma trouxa de roupas na cabeça, indo para a casa dos pais. Mesmo depois da quarta-feira de cinzas, o café ainda não estava pronto. Fiquei sentado na sala esperando a porta abrir. Madalena realmente tinha ido.

Fui procurar por suas amigas, mas nenhuma tinha notícias, nos bares ela também não estava, nunca fora mulher disto. Contei algumas moedas no bolso e fui ligar, mas o telefone não atendia. A cidade estava se erguendo do carnaval, e o cheiro quente do suor no asfalto ainda estava lá.

Voltei para casa, e esta continuava vazia. Deitado no colchão penso em Madalena. Talvez o morro fosse pouco para ela, talvez a vontade fosse pouca... Ela não era Amélia, e descobriu que a fome era feia. Queria acordar em um poema e encontra-la nas rimas, nos versos. Queria ver toda a beleza e lirismo da tristeza e do sofrimento. Sofrimento só era bonito nas palavras, não no peito.

De repente, tudo fazia menos sentido. Não queria mais tocar o meu violão. Comi pouco e esperei a quinta amanhecer. Seu cheiro estava em todo lugar e ficar naquela mesma cama que antes era nossa não valia mais a pena. Pensei em correr ao seu encontro, mas tinha sido proibido. Não poderia ficar com alguém que não quisesse o mesmo.

Voltei para a minha rotina. Acreditei que ela voltaria. Pensei nisso. Acreditei que o amor passaria assim como o samba, mas sabia que estava apenas me enganando.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Três pontos

Conheci uma figura bastante singular esta semana.

Estava voltando para casa quando resolvi parar para comer alguma coisa. Sentei em uma lanchonete para comprar um quibe quando de repente:

– Quer uma cerveja? É que veio muita gelada e está empedrando. Se não tomar logo, o gás vai escapar e eu vou perder o meu dinheiro.

Na verdade, não foi tão “rebuscado” dessa maneira, porém bem elaborado. Aceitei. Bebi uma cerveja com o novo amigo. A cerveja aproxima os homens e dessa vez não foi diferente. Conversamos e descobri um pouco mais sobre as coisas. Ele tinha vinte e seis anos e três filhos. Era negro e estava desempregado. Chorou – literalmente – suas desgraças pra mim por quase duas horas.

Essas coisas me atingem de uma maneira estranha. Nunca fui muito de me importar com sofrimento alheio, mas aquilo de alguma maneira me sensibilizou demais. Acho que o fato de uma pessoa que nunca tinha visto na vida começar a falar e chorar na minha frente mexeu um pouco comigo. Pensei bastante e acabei lembrando de uma velha amiga de faculdade. Ela uma vez – depois de várias discussões sobre teoria contra realidade – me falou que existem verdades que não se encontram no plano real das idéias platônicas. Dou o braço a torcer; estava certa. Aquilo foi uma aula que jamais tive.

Desde que entrei na faculdade, aprendo muito mais com meus colegas e pessoas de fora, mas ligadas à área, do que com meus professores. Toco muito melhor hoje em dia depois de quase dois anos de bandinha de rock do que em minhas distantes aulas de violão. Ela estava certa, mas não completamente!

Essa não foi a única história importante da semana. Nosso neto de Senador também levou uma facada. Isso parece bastante agressivo, mas... A agressora falou que foi devido ao aumento de noventa e um por cento dos salários decido por eles mesmos. Fico imaginando quanto seria o meu salário se eu pudesse decidir quanto ganhar...

E repente penso que algo está prestes a mudar. Esse foi um ano estranho. Uma senhora tocou fogo em outra pois não recebeu o INSS, uma outra deu uma facada em um deputado e mais outras coisas. Ainda é pouco, eu sei, mas bastante diferente de tudo antes. Parece que os expectadores estão querendo interagir com a peça.

Nunca fui partidário a nada, nenhum partido. Tão pouco perdi meu tempo com besteiras sobre voto nulo. A vida parece ser um grande clichê, ainda maior do que esta frase. Não sei a que conclusão chegar, mas marquei de tomar mais cerveja com o rapaz do primeiro parágrafo!

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Apenas algumas palavras

Nunca pensei em ser artista plástico. Confesso que até via este ofício com um pouco de despeito. Na verdade, acho que ainda vejo desta maneira, mas menos do que antes. Meu primeiro contato com artes visuais veio através das histórias em quadrinhos. Dessa maneira comecei copiando desenhos. Nunca tive muita dúvida do que queria fazer na vida: sempre gostei de desenhar e hoje acho algo vital, quase como respirar.

Pouco me agrada arte contemporânea e principalmente, não consigo ter nenhum apreço por arte conceitual. Acho algo chato e inútil; deixa o lado artesão do artista para trás. Nunca vi uma instalação que me agradasse e acho que quase todas me remetem a lixo. Sempre achei essa estória de que o artista é um expoente e um sensível da sociedade como uma grande picaretagem. Recentemente vi alguém quebrando uma escultura até bem bonita com o argumento de que aquilo era uma representação de como a sociedade era injusta e de como ele se sentia frustrado com tudo aquilo, sobre suas repressões sexuais e blá, blá, blá. Não tenho a menor paciência para isso. Acho simplesmente bobo.

Esse é apenas um dos exemplos. Discordo completamente de que basta uma idéia na cabeça e uma câmera em mãos para fazer um filme – talvez por isso os filmes de Glauber Rocha sejam tão legais... Também não acho que técnica deva ser a tônica de qualquer obra, mas acho fundamental em seu devido grau. Não gosto de Duchamp e nenhum dos seus “filhos”. Quando era pequeno fui em uma bienal de artes em São Paulo e fiquei muito frustrado. Acho que foi quando eu comecei a pensar que não queria ser artista, apenas desenhista.

Confesso que já mudei um pouco minha maneira de ver algumas coisas desde que entrei na faculdade. Acho que muito do que eu aprendo é importante. Com certeza sei muito mais do que antes, mas ainda continuo achando arte conceitual uma perda de tempo. Talvez o errado seja eu. Parei no tempo! Quase todos os movimentos que gosto, já foram encerrados a mais de cem anos.

Gosto da antiguidade clássica, gosto bastante do movimento gótico e suas figuras alongadas. Acho que a coisa começa a ficar legal com a chegada do renascimento. DaVinci era um grande sujeito e um bom pintor. Um pouco monocromático... Sou um grande fã dele, mas acho que isso quase todo mundo é. Talvez ele seja uma das grandes unanimidades da arte. Prefiro Michelangelo!

Durante a renascença, movimento não era algo muito comum nas obras. Existem algumas tentativas como em Botticelli, mas pouca coisa. Apesar de toda a sua indiscutível genialidade, Davinci acabou sendo um grande nome do renascimento, enquanto Michelangelo foi o pai do movimento a seguir, o barroco.

O grande momento chega com o romantismo. Acho essa uma das melhores épocas de toda a humanidade. Ótimos escritores, excelente pintores e compositores. Depois disso, houveram poucos que me agradaram. Munch é um exemplo.

Continuo lendo histórias em quadrinhos e sou muito feliz com elas. Gosto do experimentalismo de alguns dos seus desenhistas, a maior parte desses formados em artes plásticas... Aprendo um pouco mais a cada dia. Talvez eu mude tudo isso em uma semana!

quinta-feira, novembro 09, 2006

Sua falta preencheu o mundo

...E todos foderam a minha princesa. Era a verdade nas imagens em preto e branco. Demorei a entender as cores e em como elas poderiam dar sentido. Entendendo-as, descobri como a sua falta poderia ser genial. Não existe um meio termo para isso: ou colorido, ou não.

Estes foram os anos! A via apenas à distância. Achava que era bonito o meu bem querer. Pessoas a queriam mais que aquilo – várias conseguiram. Eu esperava que em suas noites, ela fosse feliz, mesmo sabendo que não era em mim que ela guardava seus pensamentos. Nunca me masturbei pensando nela. Sua vagina era santa pra mim.

Muitos a comeram, eu não. Sempre estive lá. Parado, mesmo sem ela saber meu nome todo. Fui arruinado ainda no colegial. Poderia até ter chances... Estas se foram. A vi do outro lado da rua com um outro rapaz – braços grandes e peito largo. Um tom azul, diferente do verde. Faltou amarelo...

Um dia a encontrei depois de uma peça de teatro. Perguntei como ela estava. Ela me devolveu um sorriso amarelo e sem vida e me perguntou com os olhos: quem é você. Pensei durante alguns segundos. Respondi: Faça-me o favor de ir se foder. Você sabe, o alcoolismo sempre bate à nossa porta...

domingo, outubro 22, 2006

First breath after coma

Esperei demais e a tristeza passou. A dor ficou velha e nada mais faz tanto sentido. Eu tento, bem que tento. Acho que não pode ser deixado no passado – ser registrado em um eterno presente. A abracei sem forças, pois nunca achei que precisaria dar um abraço como aqueles. Esqueci disso: todos partem! Já deveria saber disso – eu já parti, e partido, aqui fiquei. Fiquei triste com mais uma despedida.

terça-feira, outubro 03, 2006

Lições e morais

Era bonita e cheia de sonhos na sacola. Fez faculdade de comunicação e após formar, foi trabalhar em um supermercado como gerente de qualquer coisa que não me recordo exatamente o que era... Lá ficou por três longos anos: cansou! Decidiu que queria mudar de vida e tentar tudo desde o começo novamente – voltar à primeira frase. Mudou-se para uma grande capital e lá, com a experiência que tinha, foi trabalhar em um supermercado como gerente de qualquer coisa que não me recordo exatamente o que era...

domingo, outubro 01, 2006

Moto contínuo

Chegou em casa depois de passar muito tempo esbravejando no trânsito das seis. Brigou no trabalho, e até o dinheiro era insuficiente para uma cerveja. Subiu rápido as escadas e entrou ainda suado no apartamento. Foi à geladeira procurando algo pra beber ou comer: foi uma busca infrutífera...

Sentou no velho sofá – abaixo de uma foto desbotada na parede – da sala e ligou a televisão. A luz azul contrastou com a pintura cinza. Foi atacado por todas as informações do noticiário. Cansado, procurou uma revista próxima à mesa e começou a ler. Riu sozinho...

Depois do momento de ócio, decidiu descer um pouco pra jogar seu tempo fora com a contemplação da noite. Não conseguia ver o céu, a lua ou as estrelas: era tudo de um cinza único, uma cortina de fumaça escondendo qualquer esperança que houvesse. Entendeu que ainda assim existia beleza e poesia naquela feiúra lúgubre. Acendeu um cigarro para colaborar com o teto gasoso. Deu tragadas fortes até se acostumar com a quentura nos pulmões.

Andou com o olhar perdido em todo tipo de fumaça que vinha da cidade. Fez pequenos desenhos no ar com suas baforadas... Seus pensamentos estavam perdidos em algum espaço. Pensou em voltar para casa, mas não sabia exatamente onde era este lugar. Tinha uma sensação estranha de nunca ter estado em casa, mas por algum motivo, sabia que parado, ali no meio das praças e ruas, estava muito mais próximo do que confinado em um apartamento. Parou para olhar a beleza do asfalto e o toque do concreto. Sentiu todo o poder da natureza humana sobrepujando a força de Deus. Era homem, e disso teve certeza.

– Estava sumido, nunca mais tinha te visto...

– Engraçado, vejo-me todos os dias – riu ligeiramente com o canto da boca.

– Nunca mais me procurou...

– Acho que o mesmo serve também a você. Cansei um pouco de tudo isso. Se eu não te procuro, tu não me procuras, é isso? Mesmo que queiras, não me procuras? Tens tanto medo assim?

– Você está mudado, isso sim!

– É o mínimo que se espera... Não quero mais ouvir reclamações deste tipo; como já disse: cansei! De repente as pessoas se repetem e isso perde um pouco da graça. Não consigo mais rir da mesma piada. Talvez seja apenas isso, ou tudo isso... O problema talvez seja você que não mude, e já não gosto mais que continue sendo “você mesmo”!

– Não é isso... Esqueça, você não entendeu...

– Você está certo, eu realmente não entendo.

Novamente sozinho sob seu céu monocromático. Riu da partida do outro, e tudo o que falara era verdade. Deus o livrasse; ele era homem, ele criou Deus! Já não era mais nada, não tinha mais um criador. Perguntou-se de onde teria vindo aquele céu, e olhando novamente para a cidade e suas fumaças, teve sua resposta. Caçou nos bolsos um cigarro e descobriu que era o último; sabia que teria problemas para dormir.

Olhou o relógio e viu como era tarde. Tinha que voltar para o apartamento – nunca voltaria à casa – e continuar o que tinha deixado por fazer. Sentar-se novamente no mesmo sofá e esperar o fim da noite e suas luzes para continuar a mesma rotina que tanto maldizia, mas a qual não saberia viver sem.

Correu os bolsos novamente... Talvez desse para terminar o dia com uma cerveja. Quem sabe até pintasse o céu com mais um pouco de cinza.